Economista subverte Nelson Rodrigues e defende o estigma do mutt – Alias

Um vira-lata, sim, para o seu governo. É um refrão alternativo de samba do Cão vira-lata, que Carmen Miranda tornou-se popular em 1937 (“eu gosto muito de cachorro vagabundo que anda sozinho no mundo sem coleira e sem patrão), mas poderia muito bem ser um manifesto. No lugar do ‘homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, o vira-lata que melhor define o que é ser brasileiro, mestiço, sem pedigree. Também por isso, o economista e pensador mineiro Eduardo Giannetti decidiu abrir o seu novo livro, o Louvor do mutt e Outros Ensaios, precisamente com este “manifesto” em louvor do tipo, finalmente, terminando com o “complexo de vira-lata”, denunciou, há exatamente 60 anos, o dramaturgo Nelson Rodrigues. Subvertendo Rodrigues, Giannetti diz que, ao contrário, que o bom é ser um vira-lata. E explica os motivos.

Em uma entrevista concedida ao Aliás, o economista reforça a conclusão do julgamento a abertura de seu livro: o mutt celebra a amizade, o convívio, e está sempre pronto para o prazer do momento, rejeitando o culto da pureza racial. O nosso estado como um vira-lata, defende Giannetti, “é uma realidade, genética comprovada”. Estamos, justifica o economista, o afro-euro-ameríndios descendentes, uma mistura total. O mutt de “complexo”, batizado por Nelson Rodrigues, no entanto, considera que este passa a ser menor.

Há muitos exemplos históricos e literários, além de, como o Anjo negro, o conto de Miss Edith e Seu Tio, de Lima Barreto, que Giannetti usa para comentar sobre um caso perturbador de vocação categorias. Angélica, o faz-tudo de uma pensão carioca do Flamengo, está muito feliz com a perspectiva de servir a um casal de estrangeiros-a branca, apenas para descobrir que “eles (o inglês) são como nós”. Ou pior. O sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao resto do mundo – particularmente os países ricos – “é uma realidade inevitável da vida brasileira”.

O vira-lata, conclui Giannetti, “se você ver como ele é visto, ou imagina-se a ser visto: o mal-ajambrado e pé rapado”. E, acima de tudo, não se define por profissão, como nos países de formação calvinista. O suor da bíblia, nota o economista, o vira-lata prefere suar o dionisíaco, sem esquecer os milhões de desempregados em todo o país e são jogados involuntariamente para o mercado informal. “Ainda vivemos no Antigo Regime, em que os governantes se imaginar que as pessoas existem apenas para servi-los”. A operação Lava Jato, justifica Giannetti, tornou-se explícito o clientelismo político que usa o poder para perpetuar-lo, apertando o pescoço do contribuinte, com uma carga tributária insuportável (hoje, cerca de 34% do PIB, 10% a mais do que o número registrado há 30 anos atrás). Este, aliás, é o tema do terceiro ensaio do livro, que fala da desigualdade social no Brasil.

Mais tarde, na última parte, o leitor vai descobrir a origem de seu interesse na filosofia social do economista inglês Alfred Marshall (1842-1924), que deixou de ser ministro anglicano para a formulação de uma política microeconômica, cujo foco é justamente o capital humano. “O Estado é corporativista, anacrônico, ninguém representa os brasileiros que estão em situação irregular”, diz Giannetti, defendendo a crença de instituições em capital humano – a iniciativa, a invenção, como um fator de produção de riqueza.

“As pessoas não aceitam a legitimidade da tributação do governo quando os nossos indicadores de saúde e educação são desprezíveis e metade da população não têm coleta de esgoto”, diz ele, citando o slogan que desencadeou a Revolução Americana no século 18: “Não há tributação sem representação”. Evoque-se que esse slogan nasceu de um sermão de um pastor, em 1750, não da boca de um político.

Giannetti, que usa a palavra transcendental, inúmeras vezes na 25 de texto de seu livro (publicados entre 1989 e este ano), fala sobre suas outras crenças, especialmente na segunda das três partes do livro – o primeiro dedicado a problemas no brasil, o meio sendo uma coleção de dispersos literomusicais e o terceiro, um painel da filosofia econômica do professor, consultor da candidata à presidência Marina Silva.

No campo da música, a sua preferência vai convergir para o período barroco, e, mais particularmente, para o compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). “A vida é avassaladora, o som de lançamentos”, escreve ele, revelando que ouvir a Partita II Bach, é, para ele, “a experiência religiosa por excelência”. Giannetti, tinha 16 anos de idade, quando ele ouviu pela primeira vez, graças a um amigo de escola. Sem saber a teoria ou a leitura de uma partitura, o economista desenvolveu um gosto pela música, bem acima da média, falando com facilidade sobre os concertos para piano de Mozart e litúrgica obras de Bach. “De Mozart não tem a elevação espiritual de Bach, mas eu realmente gosto do classicismo austríaco do século 18 (ele é um profundo estudioso do Iluminismo), sentindo-se na obra de Mozart, a crença em uma ordem cósmica que nos transcende.”

Ainda na segunda parte do Louvor do mutt, Giannetti este é um tema cultural de suma importância: a filosofia do poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994), autor de uma biografia de referência sobre o Pasteur e dois livros sobre Fernando Pessoa. Giannetti escreveu uma introdução para a edição brasileira das obras do filósofo lusitano, reproduzida em seu livro. Nele, o economista destaca o ativismo de Agostinho da Silva, não é possível contemplar o mundo sem o desejo de interferir com ele. Tanto é verdade que, durante os anos que viveu no Brasil (1947 a 1969), ele ajudou a fundar a Universidade Federal de Santa Catarina, além de participar da criação da Universidade de Brasília.

Agostinho foi um grande crítico do secularismo da sociedade contemporânea. Mas o “tom às vezes messiânica” em sua mensagem, alerta Giannetti, não obscurece o “acerto de seu argumento”. A transformação proposta pelo filósofo de português não passa por uma revolução política, mas espiritual. Em tempos de crise como o atual, a leitura de santo Agostinho recomenda com entusiasmo pelo autor, o brasileiro, que estava chocado com as faixas pedindo a intervenção militar durante a recente greve de motoristas de caminhão. Comparando a greve de 2018 para as manifestações de 2013, ele diz que o governo “agiu de forma atabalhoada em ambos os casos, lembrando que, há cinco anos, o secretário de Dilma rousseff, Gilberto Carvalho, chegou a declarar que “as pessoas estavam sendo ingrato” com o governo, como se a população fosse para assumir o papel de um Estado vassalo. Este não é, definitivamente, o Brasil que Giannetti deseja.

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